Espiritualidade e Experimentação: 50 anos do mais psicodélico álbum dos Beatles!

Instrumentos indianos, influência de drogas psicodélicas, músicas de protesto, guitarra dobrada, canção infantil, Grammy de melhor capa, e muito mais, em um álbum que nasceu praticamente por acaso e completa nesse mês de agosto 50 anos de existência.

Revolver frequenta facilmente a lista de melhores discos de rock de todos os tempos. Pode ser considerado um divisor de águas na carreira do quarteto de Liverpool. No período de tempo em que o álbum foi lançado, na verdade, o plano era ter gravado um filme com integrantes da banda, mas eles não curtiram o roteiro. Por isso acabaram tirando umas “férias” e em meio ao ócio criativo invadiram os estúdios entre 6 de abril e 21 de junho de 1996 para produzir um novo disco, repleto de novidades e novas percepções.

Revolver! Um tiro na produção musical da época. Mas o nome do álbum não tem a ver com a arma, mas sim ao movimento de “reviravolta”, ou movimento circular, presente tanto no tambor de um revólver quanto na rotação de uma vitrola. Viraram foi a mesa com essa obra-prima de música experimental que mudou completamente a carreira da banda.

Um dos fatores que mais influenciou a sonoridade do disco foi a onda de cultura indiana que invadia a boemia londrina nos anos 60. Quem surfou nessa onda foi George Harrison, que comprou vários discos do Ravi Shankar, uma cítara e começou a estudar o instrumento de forma autodidata. Em um segundo momento, chegou a contratar os serviços de Ayana Agandi para aulas de música indiana clássica.

E as histórias que ligam o disco a experiências com LSD não são escondidas de ninguém. John e Cia teriam experimentado a droga no verão de 65 e, segundo os críticos, isso teria expandido a visão artística dos jovens, tanto no sentido político, filosófico, religioso, quanto técnico, diante das novas possibilidades rítmicas de cada um.

Dessa pitada de psicodelia se destaca mais fortemente a faixa “She Said, She Said”. George e John provaram o ácido “acidentalmente” junto com suas esposas quando a droga foi misturada no café dos músicos, (sem eles saberem) por um sujeito chamado John Riley, dentista atuante em West London. Após saírem para um passeio pela cidade, George descreveu a brisa:

“Me lembro que foi a melhor sensação de minha vida, eu estava apaixonado, mas não era por ninguém — era por tudo, tudo estava correto, tudo estava em perfeita sintonia, e eu queria revelar a cada um lá dentro que eu amava a todos — gente que eu nunca tinha visto antes”, confessou Harrisson.

É claro que a droga em si não faz nada sozinha, mas a onda de enriquecimento criativo e cultural de todos, àquela época, culminou com uma experimentação profunda na percepção artística da banda, é inegável.

A própria capa traz traços de psicodelia bem evidentes. Trabalho artístico assinado por Klaus Voormann, a arte foi premiada com o Grammy de Capa de Álbum – Arte Gráfica, na premiação de 1966. Essa deve ter sido, sem dúvida, a maior obra de Klaus, que teve forte ligação com os meninos de Liverpool, tendo inclusive recebido o convite pare ser um integrante da banda de John com Yoko, em 69. Klaus tocava contrabaixo no grupo Manfred Mann.

Reza a lenda que Klaus recebeu algo em torno de 40 e 50 libras para fazer a arte. Saiu barato para um desenho/colagem preto e branco que marcou a história do rock britânico, não?!

Chegou-se a cogitar que o disco se chamasse Abracadabra (acima), com uma arte teste que nem de perto chega aos pés da original. O álbum, além de marcar um momento de maior crescimento de George no processo criativo da banda, também é lembrado por ter dado a Ringo um brilho especial em dois momentos: primeiro por cantar o sucesso estrondoso de “Yellow Submarine” e depois pela própria musicalidade do álbum,  que pode ser considerado, no mínimo, um grande momento dele como instrumentista.

O sétimo álbum da banda é uma verdadeira pedrada. E como ele está em mês de aniversário, vale a pena um faixa-faixa com curiosidades e informações sobre cada uma das músicas, vamos lá, ao lado A:

Lado A:

> Taxman – Gravada nos dias 21, 22 de abril e 16 de maio de 1966

É a primeira e única vez que uma música de Harrison abre um disco dos Beatles. A canção fala sobre cobrança de impostos e ironiza o fato de que até para morrer é preciso pagar ao governo. “Mr. Wilson” citado na música refere-se diretamente ao Primeiro Ministro Inglês do Partido Trabalhista, Harold Wilson.

Nessa faixa Paul toca contrabaixo e guitarra solo. Não só o tema é considerado atual, mas também a sonoridade em si da música, que contra com arranjos pra lá de virtuosos.

> Eleanor Rigby – Gravada nos dias 28, 29 de abril e 06 de junho de 1966

Essa é uma balada de Paul daquelas que os fãs de “Yesterday” já deviam estar esperando. Ele foi o único da banda a participar da gravação, mas foi acompanhado ao estúdio junto com oito músicos para executarem juntos o arranjo do produtor George Martin. John também assina a letra.

> I’m Only Sleeping – Gravada nos dias 27, 29 abril, 05 e 06 de maio de 1966

Mais uma parceria John e Paul, mas dessa vez é o instrumental que rouba a cena. Isso porque para chegar a sonoridade final da faixa as guitarras foram colocadas ao contrário. Sim. A fita foi incluída na canção tocando de traz para frente. Isso garante a vaga de uma das faixas mais experimentais do disco, claro. A voz de John também foi acelerada para ganhar uma característica mais peculiar.

> Love You To – Gravada nos dias 11 e 13 de abril de 1966

Mais uma canção assinada por George, desta vez com uma declaração de amor pela cultura oriental. Ele sozinho participou da gravação, cantando e tocando cítara, sendo acompanhado pelo músico indiano Anil Bhagwat, tocando tabla. Arte, cultura, experimentalismo e muita coragem para produzir o novo.

> Here, There and Everywhere – Gravada  nos dias 14, 16 e 17 de junho de 1966

Talvez uma das mais belas canções do disco. Composta por Paul, que nela faz voz principal e é acompanhado por John e George nos back vocals.

> Yellow Submarine – Gravada em 26 de maio e 01 de junho de 1966

Mais uma música assinada pela dupla John e Paul, mas dessa vez feita exclusivamente para Ringo cantar. Para quebrar o ritmo de muito experimentalismo, que tal experimentar uma música infantil no meio de um disco de rock psicodélico? Ninguém duvida que deu certo, né? A canção contém inserções de sons de orquestras, de onda do mar e até um coro com o produtor do disco mais convidados especiais.

> She Said She Said – Gravada no dia 21 de Junho de 1966

A última faixa do lado A é mais um hit de Lennon e McCartney. Essa é a composição mais escrachada sobre o uso de drogas. A história mais curiosa sobre a faixa conta como George inovou e tocou uma guitarra em cima da outra, veja só o relato:

“Depois de uma discussão com John Lennon, Paul saiu do estúdio, abandonando a sessão de gravação e levando George Harrison a tocar contra-baixo na canção. Após as gravações, George ainda não estava satisfeito com as guitarras e decidiu gravar mais uma. O problema é que não havia mais canais disponíveis para gravação e a única solução encontrada foi gravar no mesmo canal de outra guitarra que já estava gravada. Porém, o engenheiro de gravação, Geoff Emerick alertou George Harrison que se houvesse o menor erro, tudo que havia sido gravado naquele canal estaria perdido. George disse: “Pois eu não vou errar!” e ao final da gravação brincou: “Não falei que não ia errar?”

Lado B:

> Good Day Sunshine – Gravada nos dias 08 e 09 de junho de 1966

Escrita por Paul mas assinada pela dupla. Na gravação McCartney toca piano e a velocidade o instrumento foi alterada para obtenção de um efeito desejado.

> And Your Bird Can Sing – Gravada em 26 de abril de 1966

Apesar de aclamada pela crítica, a verdade é que John nunca gostou dessa composição que assina, mais uma vez, em dupla com Paul. Reza a lenda que a faixa tem homenagem implícita aos membros da banda The Birds, que teriam experimentado LSD junto com a banda no verão do ano anterior.

> For No One – Gravada nos dias 09, 16 e 19 de maio de 1966

Balada de Paul McCartney para sua namorada, Jane Asher. Inicialmente se chamaria “What Did I Die?”. Paul é acompanhado somente por Ringo na bateria e um músico chamado Alan Civil, que tocava na Orquestra Filarmônica de Londres, tocando “French Horn”, uma espécie de trompa. Paul, além de cantar, ainda toca contra-baixo, piano e cravo.

> Dr. Robert – Gravada em 17 e 19 de abril de 1966

“Composição de John com uma ajuda de Paul. A letra fala de um “doutor” que receitava pílulas para os clientes se sentirem melhor. Imagina-se que a canção seja inspirada no doutor Robert Freymann, que receitava anfetamina para alguns artistas. Outros garantem que se trata do físico americano, Dr. Charles Roberts ou até mesmo o músico Bob Dylan, [quem teria apresentado a maconha ao quarteto], já que seu nome verdadeiro é Robert Zimmerman. Mas John desconversava e dizia que o “Robert” da canção era ele mesmo: “Eu era o único que carregava todas as pílulas nas excursões…”, diz o site The Beatles College.

> I Want To Tell You – Gravada em 02 e 03 de junho de 1966

A terceira e última canção emplacada por Harrison no álbum. Paul fez o piano mas a obra-prima fica mesmo por conta da temática: a canção fala sobre a velocidade do pensamento em relação à lentidão da fala e escrita. Um bom tema de música, não?! No mínimo instigante.

> Got To Get You Into My Life – Gravada nos dias 08 ,11 de abril, 18 de maio e 17 de junho de 1966

Inspirada na música negra dos anos 60, Paul assina a canção em dupla mas é o real autor da letra. A faixa traz participação de Les Cordon, Eddie Thotnton, Peter Coe, Ian Hammer e Alan Branscombe, tocando instrumentos de sopro em uma canção que supostamente foi feita em homenagem a cannabis. Será?

> Tomorrow Never Knows – Gravada em 06, 07 e 22 de abril de 1966

Última canção do disco dá tchau aos ouvintes com uma bomba experimental. A frase que dá título à canção é atribuída ao Ringo: “amanhã nunca se sabe”. Nessa música os acordes formam uma base que flutua somente em uma única nota: um dó maior. Diz-se que a letra é inspirada no “Livro Tibetano dos Mortos”, do militante pró-psicodelia Timothy Leary.

A história é que John queria um som completamente diferenciado para o vocal e o produtor só encontrou essa sonoridade utilizando um speaker “Leslie” como filtro e modificando o timbre da voz na gravação. A intenção de Lennon era parecer “um monge falando do alto de um monte”. Ninguém pode negar que a faixa é uma revolução em si no trabalho da banda.

O edição lançada nos EUA não conta com três músicas que entraram na versão londrina. Isso aconteceu pois cada gravadora responsável pelos lançamentos podia escolher suas próprias seleções das músicas, dependendo de cada país. A versão americana ficou sem “I´m Only Sleeping” e “And Your Bird Can Sing”.

No Brasil o lançamento ignorou a mixagem estéreo e lançou a edição em mono, mas ainda assim o registro é imperdível. Esse é um disco que está completando 50 anos, mas ainda tem muita vida pela frente. Um registro histórico de como talento e psicodelia podem caminhar juntos e ainda rumo ao sucesso.

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