Porque colecionar Discos de Vinil?

Na edição anterior do Discobiografia eu comentei como comecei a colecionar vinil. Dessa vez a questão é outra: Porque? Você… já parou pra pensar nisso? Talvez essa pergunta tenha muitas respostas, hoje vou comentar uma delas, de forma bem particular e quem sabe alguns dos leitores podem se identificar.

Eu coleciono vinil pois sou apaixonado por objetos históricos! Um vida inteira de determinado apego a brinquedos, peças decorativas e publicações que marcam época denotam friamente o amor pela história por trás das coisas. E aí o vinil dá um banho em qualquer outra mídia. Não é verdade?

Primeiro porque cada edição de vinil carrega sua tiragem e conforme o passar do tempo algumas bolachas podem simplesmente se transformar em raridades. Isso só é possível não pelo material físico, mas sim simbólico do que há ali impresso, registrado, eternizado.

Vivemos num mundo em que o objeto tem seu valor cada vez mais diminuído. Bens de consumo são feitos para se tornarem peças de reposição. A vida útil curta garante o consumo em looping. Isso não acontece com objetos únicos, colecionáveis. A história por traz das coisas realmente me fascina. Não só a forma como a música foi gravada, mas também o caminho que aquele emaranhado de plástico e papel percorreu na face da terra pra se transformar em acordes musicais, justamente em tal momento, a tal hora.

Calma, não vou enveredar para sulcos místicos de espiritualidade ou algo do tipo: “nada acontece por acaso”, mas vai dizer que você nunca pegou um disco com dedicatória de alguém para outro alguém e ficou viajando em como aquilo, de alguma forma, se perdeu no tempo e veio parar ali na sua mão. Eu sei que o ser humano carrega certo teor de egocentrismo e por isso nós preferimos sempre contar a história a partir da personalidade humana, da figura do ser iluminado a parte da natureza que… seríamos. Mas que na verdade não somos, né… somos só parte do todo.

E analisando por esse lado, vale espiar pelo buraco do vinil pra avaliar um outra realidade, só por exercício filosófico-literário mesmo, que tal? Vamos imaginar uma história da vida do disco. Ele foi prensado em alguma data específica, que a gente geralmente só sabe o ano. Comprado em algum local, por alguém, também em alguma data que a gente não faz ideia qual, mas… e se pudéssemos saber? Se déssemos tanto valor a alguns objetos como damos pras vidas, marcando suas datas, horários, do nascimento até simples estágios da vida.

Continuando… aquele vinil também recebeu a agulha de uma vitrola pela primeira vez. Ah… é qualquer coisa isso. Claro que é, mas exercitemos, só por diversão, a reflexão sobre a história das coisas. E se as “primeiras vezes” pro ser humano é algo especial, inesquecível, porque pro disco também não seria? Dentro dessa ótica louca em que nos propomos, seria legal saber quando ele soltou seu primeiro “choro” na atmosfera terrestre. E mais ainda… se ele tocou tradicionalmente: Lado A e depois o lado B. Ou se ele ficou tocando A-B-A-B-A-B por horas.

Eu queria poder saber se foi pra um ansioso e único ouvinte ou uma plateia toda animada, devorando quitutes numa sala de estar sem TV. E depois da primeira ouvida, quanto tempo será que ele demorou para voltar a fazer música? Seria lindo se algum encarte do século passado tivesse encorajado esse tipo de envolvimento com o vinil. Depois que um disco vai pra estantes de coleções enormes, pode ser que demore anos, ou até décadas, para que um agulhe volte a caminhar sobre sua superfície. E no dia que isso acontece, a gente não sabe, porque não temos em mãos as datas todas pensadas acima, mas vai ver é aniversário da compra, ou de “primeira ouvida”, ou nada disso. Mas as vezes se passaram 15, 20, 30 anos de silêncio. Talvez seja loucura minha, mas eu gostaria de saber o histórico de cada bolacha.

Ao lado da minha coleção de discos tenho algumas publicações. Dentre as mais estimadas estão, sem dúvidas, o primeiros números do jornal carioca de política e humor, O Pasquim. Ter a data da impressão é fantástico. O jornal conter parte da história do país é uma dádiva, o faz um documento da história e com isso aquele pedaço de papel representa algo muito maior do que apenas um jornal antigo.

No mundo dos vinis o máximo que temos, além do ano no rótulo central (as vezes), são as famigeradas dedicatórias. Quantas milhares de capas sacrificadas em teu nome. Mas nomes, de pessoas, são tão importantes que podem – e foram – tantas e tantas vezes escritas em inocentes capas.

Já tive a experiência de, procurando por outras coisas, acabar achando discos de vinil no meio da bagunça da casa dos meus avós. Analisando bem a capa, acabei achando alguns assinados. Infantis com meu próprio nome, mas com a caligrafia da minha vó. Acho que não precisa nenhuma sensibilidade a flor da pele para achar isso uma imagem no mínimo fabulosa. Não adianta pedir pra alguém escrever seu nome no papel. É um disco que você ouvia, escrito seu nome com cuidado, com a letra da sua avó. É diferente. Não tem preço.

Outro motivo que me fez colecionar é que colecionar significa descobrir, mas isso vai ser assunto de outro post. Volta e meia alguém ao receber visitas ouço a pergunta: “mas você já escutou todos esses discos?”, no que respondo sempre igual: “sim, todos esses com plástico estão limpos e já foram ouvidos pelo menos uma vez”, porque se a pessoa já se espantou com o que está a vista, é porque ela não viu o tanto de caixotes guardados, de onde vou retirando aos poucos tudo que já ganhei, comprei, garimpei ou adquiri através de lotes para revender e acabaram ficando por aqui.

Você vai então buscando entre poeira, papel e bolachas, e muita coisa, evidentemente, você nunca ouviu falar, que dirá tocar. Nessa madrugada eu me deparei com um compacto da banda We Five. Estava sem capa. Envolta dele, ao invés da embalagem original, estava uma capa-carta (foto). Vai ver alguém pode se emocionar tanto quanto eu com os discos dos meus avós, ao descobrir que seus antigos compactos estão na mão de um colecionar que hoje, neste dia, limpou e proporcionou o contato da agulha com o disco, ouvindo… You were on My Mind, no lado A e Small Word, no lado B.

E como o mundo é realmente pequeno, se por um acaso uma lágrima descer do seus olhos se você conhecer a Sra. Lucia Maria Aratanha, que morou na R. Leopoldo Miguez 144, apt 702, então me avise através dos comentários que eu teria o maior prazer em lhe re-enviar esse pequeno disco. Vai saber o tanto de lembrança não cabe num simples compacto.

2 comentários sobre “Porque colecionar Discos de Vinil?

  1. Genial cara, eu também tenho esse envolvimento todo com as minhas bolachas…anoto por dentro da capa o dia , mês e ano que comprei ou ganhei e sempre procuro ouvir nos “aniversários” deles.
    Tenho alguns escritos na capa,mas sinceramente não curto isso,a não ser que minha querida e saudosa avó tivesse assinado algum ,mas tenho comigo as lembranças de quando ganhava algum trocado dela e corria comprar um disco e também dos meus pais que graças a Deus estão comigo até hoje.
    Abraço e é bom saber que há mais alguns “loucos” por aí que pensam a música e a forma de ouvir como eu.

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  2. Pingback: DiscodeVinil.com: É uma loja? É um clube? Instituição?! Não… é um Blog! | discodevinil.com

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